05
maio
08

O espetáculo e seus temas

 

 

Por Maurício Perussi

 

No princípio era o Assim Falou Zaratustra de Nietzsche e todo o arrebatamento dionisíaco de seu Aprendizado Trágico. Em seguida veio O Erotismo de Georges Bataille e sua pletora de desejo em busca da continuidade perdida. Logo depois foi a A Câmara Clara de Roland Barthes e sua “imagem louca” capaz de fazer dançar a fixidez da Fotografia através de presenças que são ausências, passados que são presentes que são futuros, de vidas que são mortes, desejos que são temores.

De um lado estava definida uma tríade temática: o Aprendizado Trágico, o Erotismo, a Fotografia que, mais tarde, pôde ser englobada num conjunto temático maior: o Desejo. Do outro lado estava a vontade de fazer Teatro com esses temas aliada à experiência do espetáculo/exercício Natália, Nathália. Da tensão entre esses elementos surgiu o roteiro de Nathália, Noturna que, agora, se constitui como espetáculo.

Ao longo do processo de montagem veio a necessidade de refletir sobre o sentido de se fazer uma peça de teatro alimentada, essencialmente, pelo tema do Desejo. Foi então que se percebeu que a sociedade na qual Nathália, Noturna foi produzida tem, justamente, na captura do desejo um artifício fundamental de dominação e exercício de poder. Um poder cuja ação vem munida de todo um aparato de sedução e apelo erótico-fotográfico que interfere diretamente na constituição de nossos corpos, na vida que corre através deles.

À todo momento, em nosso cotidiano, o curso natural de nossa atenção e de nossos desejo é interrompido por discursos que pretendem retê-lo, capturá-lo através dos apelos contidos em suas formas e conteúdos. Basta abrir uma revista qualquer, sintonizar um canal de t.v ao acaso, ir ao dentista, ao teatro para que nos sejam despejadas toneladas de frases imperativas amalgamadas a imagens sedutoras – em geral imagens de corpos femininos – que glorificam a beleza, a assepsia, a juventude, o gozo, a potência sexual.

 Essa glorificação confere a tais valores o status de necessidades: todos, então, passamos a querer nos adequar à situação, passamos a desejar algo que não temos e que todos devem ter, a ansiar – através do medo da inadequação – uma pretensa normalidade. A esta altura, já nos fizeram crer que o desejo é carência, já sugaram do Erotismo qualquer promessa de conexão. Só nos resta a carcaça de um corpo que nos foi destituído; a solidão entorpecida que tanto se compraz em felicidades forjadas. Uma sociedade que atingiu o trágico pela via da impotência.

Nathália, Noturna escolhe a metáfora da noite para falar de um lugar de atuação da essência que está em movimento por trás da aparência, da vontade que está por trás e para além da representação. A noite como o reino do Erotismo entendido como busca espiritual do indivíduo por uma conexão, por uma continuidade perdida e, por isso mesmo, sempre possível com o mundo e com os outros. O Erotismo encantado do re-ligamento com o cosmos, em oposição ao Erotismo desencantado do apelo exercido nos discursos do poder.   

Haveria algum sentido profundo escondido nos discursos que se utilizam da representação do desejo para nos adaptar a seus valores ou estaríamos, em nosso cotidiano, diante de uma profusão de signos vazios que nos seduzem com a mesma facilidade com que nos abandonam?

            Haveria alguma possibilidade de liberdade para o indivíduo cujo desejo é constantemente capturado por discursos de todo tipo e que se vê impelido a construir uma identidade sempre em função do que é externo a ele em vez de ser confiado à experimentação de si como singularidade integrante de um mundo em eterna transformação?Quem é que diz o que é realmente necessário à natureza do homem?

            A fábula de Nathália, Noturna é, fundamentalmente, uma jornada solitária pela noite e, dentro dessa jornada, são vários os caminhos que nos convidam a errar por sobre eles: a perda da identidade e a possibilidade de experimentação do devir, um aprendizado trágico sobre o desejo como energia produtiva e criadora de seus próprios objetos, sobre o amor como encontro criativo; a experiência da alteridade e da estranheza; o reconhecimento do excesso, da violência, da potência trágica do desejo.

            Pretendemos, com este projeto, oferecer um discurso que convida o espectador a se posicionar ativamente como leitor da obra, deixando para ele espaços a serem preenchidos pela ação de seu imaginário: provocando o movimento criativo de sua subjetividade e da memória de suas experiências passadas, presentes, futuras.

            Diferentemente do tom imperativo da captura, compreendemos o teatro como um lugar em que as portas do discurso se abrem e fazem os desejos fluírem em direção ao sonho, à memória, à reflexão, à criatividade, a outros desejos. É essa abertura que nos libera o caminho da experiência; a possibilidade da conexão erótica; a jornada que é a própria experiência de assisti-lo e praticá-lo.